O Livro Vermelho de Carl Jung

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Trecho de uma nota encontrada, escrita por Jung em 1957

O Livro Vermelho (originalmente chamado Liber Novus) é uma das obras mais enigmáticas, profundas e fundamentais de Carl Gustav Jung, sendo também a mais pessoal e espiritual.

Durante décadas, esteve guardado como um manuscrito privado, e após a sua morte, foi cuidadosamente protegido pela família de Jung, até à publicação em 2009, quase 50 anos depois da partida do autor.

O conteúdo do livro é profundamente pessoal, com muitos diálogos e imagens oníricas, pintadas pelo próprio Jung a partir das experiências extra-físicas que ele teve com figuras arquetípicas ou da dimensão do inconsciente, como ele habitualmente referia, mas que podem ser consideradas como entidades espirituais.

O livro revela como estas experiências para-psíquicas pessoais influenciaram o seu trabalho ao longo da vida, assim como todo o desenvolvimento da «Psicologia Analítica» (também conhecida como Psicologia Junguiana), que é um dos ramos da Psicologia.

Jung é o criador de conceitos importantíssimos na psicologia, psicoterapia e auto-conhecimento, tais como o “self”, a “persona”, a sombra, a “anima” e o “animus”, os arquétipos, os complexos, os símbolos, a sincronicidade, a individuação, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo.

A publicação do Livro Vermelho representou uma mudança enorme na forma como o legado de Jung passou a ser entendido. A família de Jung considerou que a exposição pública deste material podia ser mal interpretada e comprometer a reputação científica do autor nos meios académicos e científicos do século XX, porque a cultura intelectual da época era marcadamente racionalista e materialista, e mesmo tendo sido publicado neste século, há quem queira descredibilizar a obra e o seu conteúdo.

Jung começou a compor o Livro Vermelho por volta de 1914, depois de uma rutura emocional profunda que coincidiu com o início da Primeira Guerra Mundial e com o afastamento dos conceitos teóricos de Sigmund Freud. Jung descreveu esse período com”confronto com o inconsciente”. Ele começou a registar visões, sonhos e diálogos interiores num processo a que chamou de imaginação ativa – uma forma de meditação profunda e deliberada, na qual permitia que figuras interiores falassem e interagissem com ele.

As anotações iniciais foram feitas em cadernos chamados de «Black Books», e mais tarde começou a transcrevê-las cuidadosamente e a ilustrá-las num manuscrito encadernado em vermelho, com caligrafia gótica e pinturas que lembram iluminuras medievais. Esta criação estendeu-se principalmente entre 1914 e 1930, tendo depois tido mais algumas continuações intermitentes.

O Livro Vermelho é, essencialmente, um registo da jornada interior de Jung – uma viagem deliberada às profundezas da psique, que ele via como uma realidade viva e autónoma, muito para além dos limites do seu Eu pessoal. A principal mensagem do livro é que a cura e a totalidade psíquica não se alcançam pela repressão do inconsciente, mas sim pelo diálogo honesto e profundo com ele e pela integração das polaridades internas: razão e instinto, luz e sombra, masculino e feminino, vida e morte, consciente e inconsciente, processo que ele designou de individuação.

Este processo implica numa reconciliação com as figuras arquetípicas que habitam o inconsciente, que no caso dele, lhe surgiram sob as formas de personagens como Elijah, Salomé, Philemon, o diabo, a serpente, Deus, e até mesmo Cristo.

Ele não descreveu essas figuras como meros símbolos psicológicos, mas como realidades psíquicas com vida própria, cujas mensagens devem ser ouvidas, confrontadas e transformadas. Por causa disto, o Livro Vermelho acaba por se aproximar das obras e das tradições místicas, alquímicas, gnósticas e xamânicas, que promovem o contacto com guias espirituais.

A obra veio tornar claro algo que estava implícito na psicologia de Jung: que a alma humana não é apenas um conjunto de funções mentais, mas sim um cosmos vivo, habitado por forças com as quais temos de colaborar, negociar e integrar. Por tudo isto, a publicação deste livro é um marco, e serve para demonstrar que a psicologia pode ir muito além de uma mera ciência da mente, podendo também ser um caminho mais profundo para o autoconhecimento e até uma via de revelação extra-dimensional.

A revelação pública do Livro Vermelho em 2009 foi recebida com admiração e entusiasmo por muitos, mas também com desconforto nos círculos académicos mais ortodoxos.

Os analistas junguianos, seguidores do trabalho de Jung há muitos anos, veem a publicação como uma validação da profundidade e da natureza essencialmente espiritual do trabalho de Jung. Alguns já sabiam da existência do manuscrito e já consideravam que era a origem de muitos dos seus conceitos centrais.

Os psicólogos mais convencionais olharam para a obra com cepticismo ou até com preocupação. A ideia de que Jung teve experiências visionárias, ouviu vozes e dialogou com entidades vai muito além do que é geralmente aceite na psicologia como prática científica. Muitos preferiram definir essas experiências como metáforas internas, ou até como sinais de possível psicose, embora o próprio Jung tenha afirmado repetidamente que sabia distinguir estados patológicos de estados visionários conscientes.

Para os estudiosos da religião, da mística e da filosofia, o Livro Vermelho foi motivo para novas reflexões e diálogos e passou a colocar Jung como um místico moderno, alguém que explorou o aspeto invisível da vida com seriedade e rigor. Ele não era um crente cego, mas um empirista da alma, que aplicou a observação fenomenológica à dimensão espiritual.

Muitos praticantes atuais de espiritualidade moderna viram no livro uma espécie de legitimação da ideia de canalização, de contacto com guias espirituais, ou de mergulho profundo no inconsciente como via de revelação.

Jung descreveu as figuras que surgiam na imaginação ativa como autónomas, com vontade e voz próprias, e muitas vezes diziam-lhe coisas que ele próprio não sabia conscientemente. Ele foi muito claro: essas figuras não eram meras invenções ou fantasias controladas. Elas tinham uma vida própria no inconsciente.

  “Estas figuras internas não são eu. Têm vozes, ideias e intenções diferentes das minhas.

Jung usava os termos “personalidades do inconsciente” ou “realidades psíquicas” para descrever as personagens e as suas experiências nestas “viagens imaginativas”.

Ele defendia que o inconsciente é muito mais amplo do que se poderia pensar, pois é lugar recheado de material que não depende da vontade e criatividade pessoal nem da experiência individual de cada pessoa. Por isso, as figuras que ele por lá encontrava não foram construções voluntárias e idealizadas do seu Eu mental, mas sim entidades com uma forma própria de existência. Por outras palavras: não são meramente psicológicas, criações ou divagações da mente – mas também não são “espíritos” no sentido espiritualista clássico.

Para ele, seriam algo entre uma coisa e outra: realidades psíquicas autónomas e misteriosas, que podem ser interpretadas como manifestações internas do Self (o Eu mais amplo), ou como contactos com o “plano arquetípico“, que é uma realidade que contém os modelos universais da experiência humana – os chamados “arquétipos“. Segundo o Jung, este plano não é inventado pela mente consciente, é uma estrutura viva do inconsciente coletivo.

É neste plano que habitam imagens e padrões culturais históricos como: “o herói, o velho sábio, a sombra, o Self, a morte, o renascimento, etc”. Essas formas não são ideias fixas nem figuras estáticas e semelhantes para todos os indivíduos, mas potenciais de manifestação que assumem formas diferentes conforme a cultura, a época e a experiência pessoal de cada ser humano.

Para o Jung, este plano não é simbólico apenas no sentido metafórico… é verdadeiramente real. Tão real quanto o mundo físico, só que a vibrar em outro nível da existência.

—- Este artigo foi publicado em Agosto de 2025 por Hugo Neves —-

Se ficaste interessado/a em saber mais, partilhamos de seguida um bom artigo publicado em Novembro de 2010 por “toniocolonna78” do blog: https://mysticalmodernism.wordpress.com, e que explora o conteúdo do livro (artigo traduzido do inglês).

Carl Jung entrou para os cânones da história como uma das figuras fundadoras da psicologia moderna. No entanto, um aspeto da sua carreira que é frequentemente esquecido, é o desenvolvimento de teorias que contribuíram para o ressurgimento do misticismo como força motriz do pensamento moderno.

Originalmente aluno de Freud, Jung acabou por romper com o seu mentor devido à rigidez teórica deste – Freud recusou-se a reconhecer a possibilidade de significado para além dos impulsos sexuais e violentos reprimidos da humanidade, vendo o Homem, em vez de um ser com propósito, como uma amálgama de impulsos conflituosos. Para Jung, porém, havia mais na natureza humana, e separou-se do seu antecessor para desenvolver as suas próprias conclusões sobre a natureza do inconsciente.

Mas o que aguardava o desiludido psicólogo, era no mínimo, inesperado. Em 1913, perto do final do ano, Jung, com 38 anos, viveu aquilo a que chama na sua obra autobiográfica «Memórias, Sonhos, Reflexões» o seu “confronto com o inconsciente”. A forma exata como ele desencadeou este fenómeno ou se ele surgiu espontaneamente ainda está por esclarecer.

Começando como uma série de sonhos e visões vívidos, este período da vida de Jung forneceu-lhe o material original a partir do qual viria a desenvolver as suas teorias inovadoras. O que há de mais especial nesta experiência, porém, é que, em vez de uma revelação especificamente científica, este “confronto” pertencia ao reino místico ou espiritual, apresentando notáveis semelhanças com o que tradicionalmente se entenderia como contacto com o reino do sobrenatural ou – de acordo com tradições mais religiosas – possessão demoníaca. À medida que as palavras e as imagens lhe fluíam na consciência, Jung sentiu-se obrigado a transcrever a informação que recebia à maneira da “canalização” moderna:

“Por vezes era como se as ouvisse com os ouvidos, por vezes as sentisse com a boca, como se a minha língua estivesse a formular palavras; de vez em quando, ouvia-me a sussurrar em voz alta. (…) Tinha concebido o meu confronto voluntário com o inconsciente como uma experiência científica que eu próprio estava a conduzir. (…) Hoje, podia igualmente dizer que era uma experiência que estava a ser conduzida em mim”.

Jung descreve como estes pensamentos tomaram conta da sua mente, levando-o à beira da insanidade – no fim de contas, porém, deixou-se dominar, percebendo que resistir à sua influência poderia ser mais prejudicial do que sucumbir a eles: “para compreender as fantasias que se agitavam em mim «no subsolo», eu sabia que tinha de me deixar mergulhar nelas”. Em vez de abandonar o seu projeto e tentar regressar ao normal, Jung abraçou as forças que lhe estavam a assaltar a consciência. Isto levou a novas revelações, culminando no contacto direto com entidades espirituais durante o sono.

Apareceram três seres: um velho, inicialmente identificado como “Elijah” (Elias), mas que acabou por se tornar “Philemon”, uma jovem cega chamada “Salomé” e uma cobra preta.

Jung deixa claro que era o velho quem mais o fascinava: “De repente, surgiu da direita um ser alado navegando pelo céu. Vi que era um velho com chifres de touro. (…) Ele tinha as asas da espécie de pássaros guarda-rios com as suas cores características. (…) Philemon era pagão e trazia consigo uma atmosfera egípcio-helénica com uma coloração gnóstica”. Inicialmente, Jung identificou cada uma destas figuras como “arquétipos”, ou símbolos de conceitos primordiais que habitavam os reinos ocultos do inconsciente; a figura de Elias/Philemon representava “inteligência e conhecimento”, identificada também como “Logos”, enquanto que ele sentia que a jovem cega simbolizava a “Anima”, ou o princípio “Eros”. Percebeu que a serpente sugeria o tema do “mito-herói”, mas não consegue desenvolver o significado desta em relação ao seu estado interior.

Após a tentativa de categorizar cada figura, Jung faz algumas revelações surpreendentes. Como psicólogo e cientista, seria de esperar que se satisfizesse com a explicação destas aparições como puros produtos do seu subconsciente. Mas Jung vai mais longe, admitindo que, na sua perspetiva, estes seres, particularmente Philemon, eram independentes da sua mente e vontade, sugerindo que se tratavam de entidades espirituais vivas: “Philemon representava uma força que não era eu. (…) Dizia coisas que eu não tinha pensado conscientemente. Pois observei claramente que era ele quem falava, não eu”. Jung acabou por desenvolver uma relação com este ser, tornando-se seu aluno ao absorver os seus míticos ensinamentos: “Por vezes, ele parecia-me bastante real, como se fosse uma personalidade viva. Eu caminhava para cima e para baixo no jardim com ele, e para mim ele era o que os indianos chamam de guru”. Jung relata que, alguns anos mais tarde, teve uma conversa com um idoso hindu indiano, durante a qual discutiram a ideia de gurus. Quando o homem interrompeu dizendo que tinha estudado com um erudito hindu há muito falecido, Jung perguntou-lhe se se referia de facto a um espírito. O outro homem confirmou, com muita naturalidade, que alguns indivíduos tinham o privilégio especial de beneficiar da tutela de uma entidade não humana: “A maioria das pessoas tem gurus vivos. Mas há sempre alguns que têm um espírito como mestre”.

No entanto, a natureza benevolente do guia espiritual de Jung, começou a ser posta em causa após a sua segunda metamorfose, quando exibiu aquilo que Jung descreve como traços de características demoníacas:

“Mais tarde, Philemon foi relativizado pelo surgimento de mais uma figura, a quem chamei Ka. (…) A expressão de Ka tem algo de demoníaco – pode-se dizer também, mefistofélico. (…) Ka representava uma espécie de demónio da terra ou demónio do metal”.

Surpreendentemente, esta descoberta não assustou Jung nem o fez questionar a natureza da sua experiência. Continuou a receber informações destes seres e a obedecer às suas exigências.

A interação de Jung com estas entidades resultou numa série de “escritos automáticos”. Eventualmente, tornou-se claro que existia um propósito definido na sua relação – Jung seria o veículo através do qual estes seres manifestariam o seu conhecimento, fornecendo ao psicólogo a matéria-prima que constituiria a base de todas as suas especulações subsequentes sobre o reino do “inconsciente”.

Em 1916, Jung foi impelido a transcrever aquilo a que chamou “Septem Sermones ad Mortuos”, ou “Sete Sermões aos Mortos”, ato que foi acompanhado por uma panóplia de ocorrências sobrenaturais vividas não só pelo próprio Jung, mas por toda a sua família:

“Fui obrigado, por assim dizer, a formular e a exprimir o que poderia ter sido dito por Philémon. (…) Começou com uma inquietação, mas eu não sabia o que significava nem o que “eles” queriam de mim. Havia uma atmosfera sinistra à minha volta. Tive a estranha sensação de que o ar estava repleto de entidades fantasmagóricas. Assim, foi como se a minha casa começasse a ser assombrada. A minha filha mais velha viu uma figura branca a passar pelo quarto. A minha segunda filha, independentemente da irmã mais velha, relatou que por duas vezes durante a noite a sua manta fora arrancada. (…) Toda a casa estava cheia, como se houvesse uma multidão presente, a abarrotar de espíritos.

Quando Jung finalmente sucumbiu a esta pressão irresistível, tomando a caneta na mão, relata que a tensão na casa foi imediatamente aliviada. As primeiras palavras que lhe vieram à mente foram: “Voltámos de Jerusalém, onde não encontrámos o que procurávamos”. Esta frase é entendida por alguns como um indício da natureza especificamente pagã da mensagem comunicada por estes espíritos – desiludidos com os princípios da crença religiosa tradicional (o judaico-cristianismo), os mortos abandonaram “Jerusalém”, a cidade sagrada, e procuram uma nova revelação para satisfazer o seu anseio de paz.

A implicação é que as religiões esotéricas como o gnosticismo, a cabala, o hinduísmo, o budismo, o sufismo e a maçonaria são preferíveis às doutrinas rígidas da teologia ocidental, comunicando uma “verdade superior” à “mentalidade esclavagista” cristã (para usar um termo nietzschiano). Enquanto este último rejeita a ideia de iluminação espiritual, exigindo submissão à ordem atual das coisas e fé na promessa divina de vida eterna num mundo vindouro, o primeiro encoraja os humanos a desenvolverem as suas potencialidades “divinas”, adquirindo um “equilíbrio interior perfeito” e, em alguns casos, faculdades sobre-humanas através da prática de várias técnicas como a meditação, o ioga tântrico, a “magia sexual”, o uso de substâncias que alteram a mente e uma série de outras práticas ritualísticas.

Estes temas podem também ser observados nas numerosas pinturas que Jung incluiu na sua obra, consolidando-o não só como um psicólogo talentoso, mas também como um artista altamente habilidoso. Uma em particular destaca-se como uma representação do “kundalini yoga” hindu, no qual uma serpente sagrada, serpenteando pela coluna vertebral, acaba por explodir na mente, acendendo a consciência cósmica do homem.

O processo de escrita automática que se seguiu a estes acontecimentos bizarros resultou na composição por Jung do seu misterioso «Livro Vermelho», ou «Liber Novus», um processo que se estendeu por dezasseis anos. Jung, de facto, manteve esta obra em segredo por temer que o seu conteúdo destruísse a sua reputação como psicólogo. Os seus herdeiros, de acordo com a sua vontade, nem sequer permitiram que os estudiosos a examinassem até 2009.

E a partir deste material, obtido diretamente do “reino espiritual”, Jung construiu as suas teorias. Comparou o conteúdo da sua obra com estudos anteriores que tinha conduzido sobre o gnosticismo, percebendo uma ligação direta entre ambos. Isto, por sua vez, levou a um interesse pela alquimia, que via como possuidora de semelhanças com a antiga religião gnóstica e as suas teorias:

“Entre 1918 e 1926, estudei seriamente os escritores gnósticos, pois também eles se tinham confrontado com o mundo primordial do inconsciente (…). Durante muito tempo, revelou-se impossível encontrar qualquer ponte que conduzisse do gnosticismo – ou neoplatonismo – ao mundo contemporâneo, mas quando comecei a compreender a alquimia, percebi que esta representava a ligação histórica com o gnosticismo e que, por isso, existia uma continuidade entre o passado e o presente”.

A partir das informações que descobriu durante a sua pesquisa, Jung chegou à conclusão de que tinha sido chamado a ressuscitar a antiga sabedoria do passado e a apresentá-la ao mundo sob a forma de uma psicologia moderna do inconsciente. Não só o mundo espiritual o tinha escolhido como seu profeta, como Jung possuía também uma forte convicção de que era uma tarefa que herdara dos seus antepassados, nomeadamente do seu avô, que era “um fervoroso maçom e Grão-Mestre da Loja Suíça”. Mais adiante, escreve:

“Enquanto trabalhava nas tábuas de pedra, tomei consciência dos laços fatídicos entre mim e os meus antepassados. (…) Muitas vezes parece que existe um carma impessoal no seio de uma família, transmitido de pais para filhos. Sempre me pareceu que tinha de responder a perguntas que o destino tinha imposto aos meus antepassados e que ainda não tinham sido respondidas, ou que tinha de completar, ou talvez continuar, coisas que eras anteriores tinham deixado inacabadas.”

Jung abraçou a sua tarefa. Entre os seus numerosos tratados sobre a psicologia do inconsciente, é possível reconhecer instantaneamente influências alquímicas e gnósticas. A ideia de “transferência”, por exemplo, ou a integração do lado “escuro” da mente, representa uma unificação da mente num tipo de hierogamia (a união entre divindades ou opostos que se completam) que pode ser rastreado até aos ensinamentos dos alquimistas medievais. O conceito de Jung de inconsciente coletivo, este repositório cósmico de imagens arquetípicas, não é mais do que uma reformulação moderna da concepção gnóstica do universo, na qual “Tudo é Um” e a mente humana é entendida como um reflexo microcósmico da vastidão do cosmos. Daqui obtemos a ideia do mundo como “maya” ou ilusão, e o ensinamento de que, através do conhecimento, o homem pode romper as barreiras do universo material e reunir-se com a Fonte, o centro do universo. Os arquétipos de Jung podem, portanto, ser considerados entidades vivas dentro da mente cósmica, da qual o homem, quebrando as regras da sua realidade quotidiana, pode ocasionalmente obter um vislumbre momentâneo.

Jung aceitou, portanto, prontamente a sua tarefa de embaixador do ocultismo no mundo moderno. Utilizando a sua profunda compreensão do funcionamento da mente humana, foi capaz de formular um sistema no qual conceitos há muito descartados como a superstição e o absurdo puderam ser reintegrados na experiência humana.